O² Expedição

Barragem Piraquara II

Construída entre 2003 e 2008, Piraquara II é a mais nova entre as quatro barragens que abastecem a grande Curitiba. Alimentada pelos rios Iraí e Iguaçu, Piraquara II encontra-se dentro da área de preservação ambiental dos mananciais do Altíssimo Iguaçu. Sua área alagada é de 5,6 km², totalizando a capacidade de armazenamento de 21 milhões de metros cúbicos de água. A barragem localiza-se no munícipio de Piraquara ("toca do peixe", em tupiguarani), a cerca de 30 km do centro de Curitiba.

Fonte: Sanepar

Refrilosofia Vaga

Corrente filosófica oduísta de vertente véthica que consiste tão somente em adotar um veículo cíclico e percorrer um caminho afastado com apenas uma pretensão: tomar um refrigerante vagabundo.

- Mas, assim: tão pouco?

Sim, tão pouco. Quando se quer quase nada, tudo que se tem já é muito, quase tudo. E é nessa poucoqueressência que as espectativas não sobrepujam as experiências. É nesse pouco querer que o caminho, a bicicleta e o ciclista tonam-se parte de uma só realidade vívida e experiencial. E é nessa mesma garrafa, em que se mata a sede fisiológica e filosófica, que reside a beleza e a sabedoria do refrigerante vagabundo.

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Saída27/11/2010 14:15hCuritiba - Capão da Imbuia
Chegada27/11/2010 18:45hCuritiba - Capão da Imbuia
CustoR$ 2.00Composlulis thiago arce
Pedalada56.1 km3h 20'16.8 km/h
ItinerárioCuritiba - RMs - Pinhais - São José dos Pinhais - BR277 - RMs - Piraquara - Represa Piraquara II - RMs - PR415 - Curitiba

Barragem Piraquara II

Pedalar é uma ação reflexiva que tem mais sentidos do que se pode imaginar parado, filosófico leitor. O pedalante percorre ciclicamente o seu e outros tantos mundos, indo e vindo, respirando e transpirando, absorvendo e deixando-se absorver no caminho em que conduz a bicicleta (ou em que a bicicleta o conduz).

Diferente do veículo motorizado, o tempo na bicicleta é mais calmo, mais perceptivo, mais leve. Como você já deve imaginar (ou saber), anímico leitor, pedalar lava a alma. O que você não sabe é que pedalando se lava a alma até com refrigerante vagabundo. O escritor gaúcho Moacyr Scliar, perda recente e irreparável da literatura nacional, soube traduzir com fidelidade (e muito mais elegância) esta sensação temporal (e líquida):

"Preparar café filtrado é uma coisa artesanal que para os puristas inclui até a moagem dos grãos; um processo lento, cuidadoso, meditado. A água fervente vai sendo despejada aos poucos, permitindo uma negociação (cujo resultado é a intimidade) entre o líquido e o pó. Já o expresso, como diz o nome, é um café automatizado, com pressa. O vapor passa ligeirinho pelo pó de café, extrai dali o máximo que pode e se condensa para que se possa tomá-lo."

Moacyr Scliar, Do jeito que nós vivemos (2007)

Tudo bem, tudo bem: o texto não discorre sobre bicicletas - e talvez Scliar nem pedalasse sobre elas. Também não há registro do costume de pedalar bules, tampouco de passar bicicletas no filtro (embora seja comum passá-las no líquido e no pó). No entanto, o romancista converge para o mesmo ponto ao defender a mesma sensação, a mesma paixão pela fuga do domínio do tempo - muito embora o faça com outro aroma, outro sabor. A alma é a mesma, a calma é a mesma, só que o sabor do cicloturismo é de refrigerante vagabundo.

Ah, sim, cicloturismo! Afinal, tudo isso é sobre andar de bicicleta, não é, cíclico leitor? Pois bem, neste dia fizemos um passeio leve e com apenas um objetivo banal (algo que só a Refrilosofia Vaga pode explicar). Conhecemos e revisitamos alguns belos caminhos de Piraquara, tangendo a represa nova (ou quase nova) em vários pontos. Inclusive na cabeceira da barragem, visitando o mirante que não ainda não existe (embora a placa do mirante lá exista). E, sim, sentamos em um boteco e dividimos um refrigerante vagabundo. Claro, claro, pedalamos também.

Ao final da cafeínica crônica, Scliar aponta um estudo sobre a elevação do colesterol nos adeptos do expresso e conclui: "Meu palpite é que, na Batalha Final, vencerá quem tem menos colesterol. E menos pressa para as coisas da vida.". Menos expresso, mais calmo. Parece bom, cafeilosófico escritor, obrigado pela dica. Do jeito que nós pedalamos.

Roteiro e castanholas ausentes por Du, fotos e texto por Lulis, para Scliar.

Expedição publicada em 28/02/2011

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Georreferências

Foto²s

Foto² 1
e daí, dois, tudo azul?

Foto² 2
aqui temos o du, que estava na espanha

Foto² 3
um pouco de asfalto às vezes cai bem (não caia, não!)

Foto² 4
no ritmo da calma, em busca do refrigerante vagabundo

Foto² 5
aqui não é só calma, não, é subida mesmo

Foto² 6
subida de pedir água! ou sombra. ou refrigerante vagabundo mesmo

Foto² 7
sabe aquela casinha na chácara, bem boa de querer morar?

Foto² 8
e aqui, que surpresa, continua a saga da busca por quase nada

Foto² 9
veja que tanto achamos quase nada que nem uns comentários bons nós achamos

Foto² 10
que foi esse olharzinho safado, hein, potrinho?

Foto² 11
e as éguas se encavalando para chegar perto do thiago

Foto² 12
ah, num pedal tão contemplativo não há como esquecê-las.... florzinha!

Foto² 13
perceba como o ciclista flui na intimidade com o pó

Foto² 14
tô falando sério, não há o que se comentar, é só para observar

Foto² 15
tipo meditação, mesmo: esvazie sua mente, encha a represa

Foto² 16
viu, funciona! deixe fluir, água e pó, água e pó!

Foto² 17
concentração, não pense em iscas de mini pintos de plástico, não pense!

Foto² 18
a beleza das bikes na barragem sob o céu, e você ainda rindo do mini pinto de plástico...

Foto² 19
continua bonito, mas confessa: você abriu a foto 17 pensando em outra coisa!

Foto² 20
essa é para reforçar o paralelo entre a água, o pó e os cicloturistas

Foto² 21
mini pintos de plástico à parte, olha o passarinho!

Foto² 22
só essa imagem já justifica a tabela com ícones de integração com mata e lago

Foto² 23
é nessa hora que a gente se pergunta: vamos tomar um refri vagabundo?

Foto² 24
chegando na cabeceira da represa, o refri já foi e você nem viu!

Foto² 25
eu digo cabeceira da represa e a placa me corrige: crista da barragem

Foto² 26
mais o panorama é esse aí mesmo, independente do nome

Foto² 27
se lia na placa: mirante. mas mirante mesmo não tinha. só ponto de mirada atrás da cerca

Foto² 28
uma árvore, imagino eu. isso sem precisar de placas

Foto² 29
as invasões de guarituba, realidade mais dura do que se vê pedalando

Foto² 30
e, no fim, assim: tudo azul e de alma lavada. lavada de golly abacaxi

Renato
[01/03/2011 09:29h]
Parabéns, tanto pela homenagem ao Scliar, quanto pela comparação do ato de pedalar a algo contemplativo, intimista. Pena que os motoristas não possam sentir isto. Deve se por este motivo que atropelam pessoas indefesas.
Johele
[01/03/2011 11:00h]
Esse foi o que mais fiquei a observar... já que realmente quase não tinha comentário. Melhor foto da flor. (poxa... pinto de plástico?... quem pesca com pinto de plástico?)
JOPZ
[01/03/2011 12:06h]
o céu estava muito show no contraste azul e branco... a região por ali é muito bonita.
Adriano
[02/03/2011 13:40h]
Nessa procura insana pelo refri perfeito, de tanto beber o dito cujo ("... alma lavada. Lavada de Golly abacaxi."), vocês irão acabar ficando igual esses caras do comercial http://www.youtube.com/watch?v=h5_HKYZdxb4 Estou começando a ficar espantado com isso! Abraço
Luis Paulo
[06/03/2011 23:35h]
Muito bacana esse pedal, já fiz esse passeio ano passado, lugar muito bonito... as fotos ficaram um show!!
Renato Campoy
[26/12/2013 16:17h]
Fiz este passeio final de semana passado, fui sozinho, sou iniciante mas achei muito bacana e a rota pronta no GPS ajudou muito, VALEU!
o² expedição
[04/01/2014 14:12h]
Valeu Mr. Campoy! Pra nós é uma alegria saber que o site é útil para os expedicionários.
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