Marquês de Abrantes

28 e 29 jan 2017 2 dias 187 km

Para tangibilizar os agentes motivadores desta misteriosa e intrigante expedição, nobilíssimo leitor, nos vemos na obrigação de recorrer a um breve resgate histórico de titulação:

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Marquês de Abrantes
É um título nobiliárquico criado por D. João V em 1718 a favor D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses, este que fora ainda 3º Marquês de Fontes e 7º Conde de Penaguião. A ele foi dado o título após receber, como doação, a vila de Abrantes e todas as suas jurisdições.
Até 1917 foram sete sucessores de D. Rodrigo, detentores deste marquesado. A então vila tornou-se uma cidade, a atual Abrantes, na região central de Portugal.

Acesso: não pareceu uma pessoa acessível.

marquesdeabrantes

Neste momento você, fidalgo leitor, se reacomoda na cadeira e, tomado por uma tempestade sináptica, tenta entender como tão manuficiente contexto poder-se-ia introduzir nesta cicloturística expedição. Até onde lhe alcançam os olhos, não se observam indícios de viagem internacional. Tivéramos a ousadia de viajar ao velho continente? Enveredaríamos arteriosamente na contramão de nossas veias colonizadoras? Ou se trata tão somente de pretexto para usufruir da imagem de um homem de discreto sorriso, profuso cabelo e excêntrico bigode?

  • Pelas ceroulas do condado, prolixos expedicionários!!! Onde raios estiveram vocês além do ca-ducado de vossa própria mente?

Inquisitivo leitor, não estamos aqui para enganá-lo. Em verdade, embarcamos nesta viagem com tanta compreensão quanto a sua acerca do nobre tema. Só sabíamos que nada sabíamos, e da mesma forma convidamo-lo a seguir conosco.

Mapa & Tracks

1Marquês de Ondes? 1 dia 113 km
DIA 1 curitiba, jaguatirica, marquês de abrantes, tunas do paraná

A feitura teve início no emblemático vislumbre de um OSNI. Logo percebemos que não era o OSNI, mas sim o Adriano - prontamente promovido a Marquês de Xavantes dado seu vasto e exótico cabelame. Não por menos, Du recebeu a alcunha de Marquês de Abrantes, dado o análogo bigode abarbado. Adiante, João Batista, o cicloturista otimista, assumiria o papel de profeta do impossível, crendo fielmente que chegaríamos a algum lugar - e cedo. Por fim, o Marquês de Roça-os-vales, famigerado Lulis, apregoava a certeza de que avançaríamos noite adentro: Aposto-lo, Thiago!

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OSNI
Acrônimo imperfeito para a expressão Objeto Ciclístico Não Identificado ¹, que significa exatamente o que aparenta significar.

¹ Se me perguntarem, digo que não conheço.

Deveras reunidos, tomamos o rumo de São Paulo. Na mesma manhã, um profundo talho no pneu do M.es de Xavantes nos rendeu. Como prova de amizade, o compadecido M.es de Abrantes deu legítimo crédito ao confrade: cedera um seu mastercárdico cartão para inserir em seu inoportuno rasgo (rasgo do pneu, seguramente). As ganas de um farto almoço, aliadas à bela paragem que se avistava ao longe, lograram preservar o ânimo do grupo.

Já era iniciada a tarde quando os cinco deixam a rodovia principal e se puseram a caminho de...

  • Marquês de Abrantes?

Sim, tempestuoso e impaciente leitor. Não estamos despendendo vossa preciosa existência com gratuitas piadas de barba, cabelo e bigode. De fato, estávamos no rumo de Marquês de Abrantes! Vívidos, animados, cabeludos e até um pouco úmidos, cultivávamos um objetivo concreto: chegar a Marquês de Abrantes.

  • Ainda hoje! (completaria João Batista)

Não tão rápido. Primeiramente, vamos aceitar que não usamos de qualquer condução, abdução ou intoxicação para viajar à longínqua cidade portuguesa. Rumávamos, sim, a uma colônia homônima, situada no território de Tunas do Paraná. A BR116, embora extensa, não previa contratos de concessão além-mar (na época).

  • Ora, pombas! Mas que raios havia nessa tal Marquês de Abrantes?!

Devagar, ansiolítico leitor, devagar. Assim como íamos nós. A expedição se mostrava um empreendimento muito custoso. Conhecíamos de outrora o relevo da região, mas sempre há cartas na franzida manga do Valete da Ribeira. Os vales sinuosos não davam trégua, tampouco a chuva fraca e persistente. Nesta batalha rendia-se apenas o mastercárdico cartão que, em frangalhos e descrédito, demandava a redução da marcha de avanço do M.es de Xavantes e seus correligionários.

O sol já se pusera quando alcançamos uma topografia mais amena, ampliando a cadência e o desenrolar das distâncias. Adentramos a já conhecida Tunas do Paraná com céu escuro, buscando apressados uma acessível estalagem para o nosso acalento. Apartamos num simpático hotel que logramos apelidar de Bom Descansso, donde saímos apenas para uma merecida recompensa pelo dia de tão exaustivos avanços: pizza.

Acerque-se das fotos e deixe-se levar pelos contos do dia, menestrélico leitor. Enquanto isso, repousam os homens de cabelos e bigodes excêntricos.

  • Mas, e Marquês de Abrantes? Conheceram?

Onde?

2Bomrretorno 1 dia 74 km
DIA 2 tunas do paraná, bocaiúva do sul, curitiba

Despertamos após um revitalizante bomdescansso no hotel. Diferente das cortes de outrora, tínhamos fácil acesso à internet, mas dificuldades com a senha do WiFi (sim, investigativo leitor: daí o apelido carinhoso do hotel). O tempo lá fora não era dos melhores, mas a sensação de dever cumprido já estava em nossas alforjas.

Tomamos o desjejum com o simpático Seu Carssudo, esposo da proprietária do hotel, dono do bar, lanchonete, restaurante e contador de histórias:

  • Mas me contem, turma: 'cês vieram de bicicleta por M-a-r-q-u-ê-s de Abrantes, foi?
  • Sim
  • Mas pra quê, zomes?
  • ...
  • Tá loco! Sabe que lá é tanto barranco, mas tanto, que a turmada plantava os pinus atirando à flechada pra baixo do vale?!

Grande Carssudo, grande reflexão. Tão lúcido, tão pedagógico. Regozijando-nos com tais palavras de sabedoria, concedemos mais algum crédito - não a ele, mas ao pneu do M.es de Xavantes. O crédito de outrora já se esfarelara como areia no deserto.

Tardiamente, tomamos o rumo de casa pela tão sinuosa estrada da ribeira. Não são poucas as lembranças que temos dali. Se você é nosso leitor desde o tempo do odois império, sabe que nossa segunda viagem oficial passou por ali, há mais de uma dezena de anos. E, mais uma vez, retornamos singrando sorridentes esse belo traçado omnidirecionalmente curvilíneo.

  • Mas, e Marquês de Abrantes? O que é Marquês de Abrantes? O que tem lá, que história toda foi essa? Passaram lá, afinal?

Não tinha nada demais.

Serviços #

Hotel Boa Esperança. Tia Mari (41)3659-1204/9872-1050, facebook. Av. Lucídio Florêncio Ribeiro, 861 - Tunas - PR.

Expediente #

Texto e registros fotográficos por du e lulis, roteiro e circunavegação por du.

Pedalado por du, lulis, thiago, adriano, joão.

Publicado em 4 ago 2018.