Corvo Branco e Rio do Rastro

22 jan a 1 fev 2016 11 dias 816 km

Houve um tempo em que a tradicional celebração itinerante anual do odois correu risco de extinção. Depois da última fartura turística, caminhos divergentes ameaçavam a execução da famigerada "viagem de verão". Mas é da confusão que brotam as boas ideias:

  • Pessoal, vou pra um retiro budista em Viamão, lá pras bandas de Porto Alegre. Alguém topa ir pedalando?

A ideia parecia muito boa, talvez por falta de outras melhores. O peculiar convite partia do Lulis que, antes mesmo de ganhar adeptos, ganhou a justa alcunha de "monge". Depois de sucessivas propostas e ajustes de agenda e roteiro, quatro bicigrinos partiriam de Joinville em configuração inédita. Não que peregrinar de bicicleta bicicgrinar seja novidade, como bem sabe o fiel leitor. O inédito da viagem era o noviço novato João, tio do Lulis (do Du, também). Heil e Thiago completavam a equipe (o Du, não).

Inédito também seria o roteiro conciso: com cisão no meio da viagem. A primeira etapa abarcaria a subida de duas serras catarinenses: as belas e sinuosas Serra do Corvo Branco e Serra do Rio do Rastro. Todos quatro, pedalando. Ou quase. Na segunda metade, o famigerado "monge" seguiria solo por solo gaúcho, peregrinando até seu destino original. Mas o perfil da expedição não era bem esse.

O perfil, barométrico leitor, era esse: _/\/\/\/\/\/\/\_. Um legítimo "dente de serra". E assim foi na altimetria, no clima, no pedal e no banquinho da bicicleta. Duas, quatro, oito ou mais serras relevantes, de alto a baixo. O que motiva cicloturistas a encarar esse tipo de perrengue? O que busca um monge peregrino em um retiro de meditação? Qual o sentido da rotação do pneu vida? Pra entender, dramínico leitor, só acompanhando os altos e baixos do caminho até o fim da viagem.

Mapa & Tracks

Vídeo

em breve
1Entrando no Clima 2 dias 217 km
DIAS 1 e 2 joinville, brusque, santa paulina, angelina

Dia de finalmente botar o pneu na estrada. Não é exagero dizer que uma alegria quase infantil (talvez mais infantil que nossas piadas infames) rege e move esses inícios de viagem. Move mais que a própria bicicleta.

Da estrada, naquilo que nos toca, aproveitávamos o acostamento. Em ritmo planície, o primeiro dia foi sem dúvida o mais suave, apesar de registrar a maior quilometragem. Prova de que distância e dificuldade não são assim, parentes tão próximos. Essa suavidade inicial caiu bem tanto para os mais vividos (como o João), quanto para os novatos (como o João, também). Ganhamos tempo e espaço para acomodar bagagens, acostumar o corpo e aquietar um pouco a mente. Caiu tão bem quanto o cair do dia, quando fomos muito bem recebidos na chácara do Seu Aníbal Heil, primo do Mister (estes sim, claramente próximos). Nem a chance de fazer o jantar tivemos: Mr. Aníbal já nos aguardava com uma galinhada pra-lá-de-caipira num fogão à-toda-lenha. Sob uma bela lua quase-cheia, entramos na noite amena e proseada, repleta de causos e coisas antigas.

No segundo dia, as serras já davam as caras. Bastante caras as subidas, diga-se de passagem. A primeira serrinha nos desceu em terreno santo: Santa Paulina ou, como diria o outro (o João, também), Madre Paulina. A paz do santuário, imerso na natureza, ressoa com a mensagem universal de amor e compaixão deixada (e vivida) por Madre Paulina. O espírito peregrino da viagem se mostrava vivo no caminho.

#
Santuário Santa Paulina
Localizado em Nova Trento (SC), o complexo religioso dedicado a Santa Paulina recebe a visita de mais de 70 mil peregrinos por mês. Madre Paulina (1865-1942), como ainda é chamada por muitos, foi beatificada pela igreja católica em 1991, recebendo o título de santa. Imigrante italiana, dedicou sua vida ao cuidado ao próximo, fé e caridade. No local onde se ergue o santuário em seu nome, fundou em 1890 a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, instituição que continua seu trabalho, conduzindo inúmeras obras de caridade.
Na parte alta do parque ecológico se destaca o templo, com a característica escadaria e passarela de acesso para os romeiros. As capelas, a casa das irmãs, o museu e até uma réplica do casebre onde Madre Paulina inicia sua obra fazem parte dos ambientes que contam a história da santa. O complexo conta com vasta infraestrutura, incluindo restaurante, hotel, amplo estacionamento, bondinho, teleférico.

Fontes: Santuário Santa Paulina, Portal de Turismo de Nova Trento.

Depois da (longa) parada contemplativa no santuário, passamos por São João Batista por um motivo óbvio:

  1. Era caminho
  2. Fazer trocadilhos com o João Batista, o Cicloturista Otimista
  3. Todos motivos óbvios acima

Enquanto o humor tomava conta, as estradas tomavam forma. A partir dali, o dia seguiu margeado por rios: rio do braço, rio tijucas, rio do engano, rio garcia. Todos riam do João, também (o João, também). Otimismo à parte, o sol quente nos obrigou uma longa pesque-pausa: 3 horas de acampamento de almoço. A tradição do acampamoço parece que veio pra ficar (o João, também).

#
Acampamoço
Tradição milenar, embora redesnudada em idos cíclicos recentes, o acampamoço (do inglês, foodtruck) é uma extensão espacial da lacuna temporal precisamente delimitada pelo hispânico costume da siesta.
Popularmente conhecido como "acampamento de almoço", o evento requer calor escaldante próximo ao meio dia e um abrigo isento da incidência direta de raios solares. Além de tempo (uma porção generosa) e cicloturistas em expedição (opcional). Preenchidos os requisitos, basta distribuir espacialmente o material carregado, como roupas secas e molhadas, equipamento de comida e dormida, móveis coloniais, bicicletas, tobatas1 e cicloturistas secos e molhados.
Em suma: tá quente na hora do almoço? Relaxa e acampa, moço!

1 Só que sem a tobata.

Na tarde curta, as estradas ribeirinhas nos brindavam com pinguelas convidativas que o Thiago ensaiava pedalar. Sim, sim, o João também. Mas foram duas pesadas subidas de serra que nos convidaram a pedalar noite adentro. A lua cheia, radiante, chegou antes de nós ao hotel em Angelina. Eram 22h quando pagávamos o longo descanso do acampamoço, jantando exaustos. Melhor dormir, pois as grandes serras ainda estavam por começar!

2Serra do Corvo Branco 2 dias 136 km
DIAS 3 e 4 rancho queimado, santa rosa de lima, aiurê, serra do corvo branco

Durante o café da manhã farto, acordamos. O acordo foi de aproveitar bem os cafés, pois nada se sabia sobre os almoços. Às vésperas de conhecer o Corvo Branco, mais um belo par de pernas trio de serras nos esperava. O dia seguiu com leves paradas para apreciar rios caudalosos, refrigerantes puros e locais santos (as fotos confirmam, o João também). Às margens do rio braço do norte, companheiro de estrada, curtimos outro acampamoço - desta vez, com tempo e comida comedidos.

Após a breve passagem por Anitápolis, críamos ter avistado o corvo branco (a serra, no caso), mas perdemos de vista o Thiago. Fomos achá-lo 10km (e uma serra) depois, jogado num bar, bebendo. O Thiago, não o corvo. Bebendo guaraná, é verdade, mas isso não amenizou a fúria preocupação. O instinto (e o estatuto) maternal do odois rege que sempre mantenhamos contato, cuidando uns dos outros. Carinhosamente (ou quase), o Thi foi lembrado (e o João, também).

Entrecortando o pitoresco caminho rio do meio, seguimos por estradinhas já mais agradáveis (e calmos). Ao fim do dia, encaramos uma subida praticamente inimpurrável até a pousada em Santa Rosa de Lima, onde repousamos na até-então-inédita modalidade pouso pizza.

#
Pouso Pizza
Modalidade de pouso em que o total de cicloturistas, normalmente em pedaços, são servidos em dois sabores de acomodação: meia-napousada e meia-nabarraca.

O dia do corvo amanheceu bonito, com promessa de poucos quilômetros. E se primeiro dia da viagem foi longo e suave, milimétrico leitor, já deves mensurar: "com baixas quilometragens vem grandes dificuldades". Precisamente. Muito sobe-e-desce por estradas de terra, com direito a atalhos em estradas abandonadas e tratoradas. Entre o intenso calor e a poeira da estrada em obras, o percurso até o pastel-da-tarde na pequena Aiurê nos consumiu sem dó.

O plano era seguir morro acima, mais 5km até a pousada. Ali poderíamos deixar a carga e, aliviados do peso, subiríamos de ataque a parte difícil da serra do corvo branco. Mas o difícil não estava por vir: ele já nos acompanhava desde cedo. Seguimos, cada vez mais exaustos, num só pensamento: chegar na pousada. O corvo que esperasse outro dia ou outra expedição. Em dado momento, o abençoado navegador anunciou:

  • ÔôÔ, rapazes, o ponto no GPS diz que a pousada é bem aqui, hã?!

Olha pra um lado, olha pro outro. Nada. Segue um pouco, nada. Será mais adiante? Ou passamos do ponto? Existe pousada além da vida? No meio do nada (da serra, na verdade), estávamos desolados. A esta altura, acampar na beira da estrada parecia razoável. Sentar no meio dela e chorar, também. Decidimos seguir mais um pouco. A dúvida da existência (da pousada) perdurou por 20km psicológicos até acharmos o verdadeiro local. Na verdade, foram menos de 2km. Mas qual é a verdade nessa hora?

Eram 16h quando, aliviados, jogamos água no rosto e o corpo na terra. Com a energia equilibrada, recobramos o ânimo e decidimos prosseguir com o plano, mesmo no limite do horário e das forças. Todos, menos o Mister, que preferiu ficar e recobrar forças para o restante da viagem.

Contrariando o forte vento e a chuva iminente, subimos o corvo branco. A beleza do local é tocante, impossível não sentir-se pequeno em meio à imensidão das montanhas. Na íngreme transposição da escarpa conhecemos uma estrada incrível, embora abandonada (interditada, também). Ainda assim, a paisagem do entorno compensava todo e qualquer deslize até ali.

Voltamos observando a coluna d'água de um temporal não muito distante. Havíamos realizado muito desde o ponto em que nos dávamos por vencidos, algumas horas atrás. Ainda havia outra grande serra a vencer, ainda havia muito chão por percorrer. Na pousada, Mister nos aguardava para um farto jantar e outro pouso pizza. Brincadeiras amareladas à parte, celebramos e repousamos todos juntos, felizes como quem sabe que não há nada para realizar.

#
Serra do Corvo Branco
Ao sul de Santa Catarina, delimitando fronteiras entre os municípios de Urubici e Grão Pará, encontra-se a bela Serra do Corvo Branco. Seu nome, corvo branco, vem da denominação popular dada a uma bela ave encontrada na região, de branca plumagem e detalhes coloridos: o Urubu-rei. A serra é parte da ampla Serra Geral, já explorada por aqui.
Cortando a serra com um traçado ousado e de sucessivas curvas acentuadas, a SC-439 é uma das ligações pioneiras entre o litoral e o planalto catarinense. No alto da serra encontra-se o maior corte rodoviário trincheiro do país, com 90m de altura. Nas laterais do corte se distinguem o úmido paredão norte e o seco paredão sul, resultado da interrupção do fluxo de água do Aquífero Guarani no trecho escavado.

Fontes: Prefeitura de Urubici, sinalização rodoviária e turística local.

Atenção! Se pretende conhecer a Serra do Corvo Branco, rodoviário leitor, verifique antecipadamente as condições da SC-439. Quando desta expedição, havia trechos em obras e/ou interditados para passagem de veículos.

3Serra do Rio do Rastro 2 dias 113 km
DIAS 5 e 6 são ludgero, guatá, serra do rio do rastro, bom jardim da serra

Depois da puxada subida do corvo (ou quase), a manhã foi de merecidos declives. O dia previa uma voltinha em direção à planície, retornando à base das serras para, no dia seguinte, galgar a aguardada subida final. O almoço em São Ludgero contou com uma inesperada entrevista para jornal e rádio locais. Na matéria, algumas peculiaridades e deslizes deram o ar da graça (e do João, também), e o famigerado deboche virou expressão obrigatória dali pra frente:

  • Ô Mister, famigerado "Mister Heil"!
  • Diga lá, ôÔô, seu monje, popular "Lulis"!
  • Sabe onde anda o novato João, popular "Bikeloti"?
  • Ôô, como diria o outro, tá lá adiante o famigerado "bike-a-lot"!

Finda a pausa gastro-jornalística, retomamos a rotina de serrinhas. A famigerada questão retórica "quem foi que fez esse roteiro?" era acatada com bom humor pelo paciente Mister, que costurava: "eu fiz sob encomenda de um certo monje, hã!". Nas introspectivas subidas, o dilema ganhou versos:

#
Trova Altimétrica
Mr. Heil, meu bom velhote,
Planejador de tréck e róte,
Mais uma serra pela qual tu opte,
Mais uma fria em que tu nos bote,
Nós, um Marquardt e dois Michelotte,
De merda, cheio, te regalamos um pote,
E te mandamos carpir um lote!

Uma serrinha de meia-tarde depois, paramos para conhecer o Museu ao Ar Livre, popular "Museu" da pequena Orleans. O espaço conserva viva a memória dos imigrantes que colonizaram a região. Envolvidos (à contragosto) por uma intermitente chuva fina e pelo trânsito intenso da rodovia, chegamos à pousada em Guatá na iminência da noite.

A chuva ainda caia quando amanheceu, mas não caia em bom dia: era dia da aguardada subida da Serra do Rio do Rastro. Para nossa sorte, a chuva logo cedeu e o clima seguiu ameno, quase frio. Na verdade, o clima oscilava: entre alegre e saudoso, curtíamos o último dia da viagem em equipe.

A estrada da serra é quase uma passarela: curvas cuidadosamente esculpidas nas encostas, pavimento bem conservado e aclividade bem comportada. Não que o desnível seja leve ou breve, mas é perfeitamente pedalável. Subimos toda serra carregados e montados, ao contrário do corvo branco. Em bicicleta, o ritmo característico normalmente nos permite uma visão mais atenta aos detalhes. Nessa manhã inteira (e intensa) de subida, pudemos apreciar a beleza natural da serra com percepção caramújica. No trajeto da popular "estrada em caracol", fomos nós os famigerados caracóis.

#
Serra do Rio do Rastro
Estabelecendo a divisa entre os municípios de Lauro Müller e Bom Jardim da Serra, encontramos a bela Serra do Rio do Rastro. Assim como o Corvo Branco e Aparados da Serra, a formação faz parte da vasta Serra Geral que separa o planalto sulista da planície litorânea.
Cortando sinuosamente a Serra do Rio do Rastro, a rodovia SC-390 é considerada uma das mais belas e desafiadoras estradas do Brasil. Além de importante ramal de ligação rodoviária, a estrada é um dos principais atrativos turísticos de Santa Catarina. Seu trecho de serra, queridinho dos clubes de motociclismo, se estende por 6,6 km. Além de vários pontos de visada e quedas d'água no caminho, há um mirante estratégico no ponto mais alto da estrada, a 1.460m de altitude. O local conta com estacionamento, lanchonete e sanitários - além, claro, de uma vista espetacular da serra.

Fontes: Prefeitura de Lauro Müller, Wikipedia, sinalização rodoviária local.

No alto da serra, uma pausa no mirante para contemplar o que passou. O registro ficou na memória (principalmente para o mister, que teve sua câmera "sumida" por ali). Celebramos com um farto almoço no centro de Bom Jardim da Serra, em clima de comemoração e despedida. Pouco adiante, nos achegamos na fazenda do popular Wilson, companheiro de outrora. Lá desmontamos boa parte (75%) do circo(turismo) da viagem. O Thiago voltaria de ônibus ainda no meio da tarde. O João, também. O famigerado Mr. Heil aproveitaria a companhia dos amigos serranos, estendendo a estadia até o dia seguinte. O Lulis, também, embora ainda estivesse no meio da sua viagem peregrina. Mas isso é história para o próximo capítulo.

4Peregrinação Solo a Viamão 5 dias 350 km
DIAS 7 a 11 silveira, cambará do sul, três coroas, khadro ling, taquara, viamão, cebb caminho do meio

Sob densa névoa, amanhece o sétimo dia. Na bruma, a viagem se redefine: os fiéis escudeiros retornam a seus refúgios, enquanto "monge Lulis" segue solitário seu caminho peregrino. Paisagens medievais à parte, os dias seguintes caminhariam pedalariam na direção do intento original da viagem: alcançar o centro budista em Viamão para o retiro de verão.

Remendo constitucional
Reza o estatuto do odois que "são publicáveis apenas as aventuras integradas por dois ou mais componentes do grupo". A presente viagem claramente não é solo, mas é. Mas não é. Assim, dada a nebulosidade deste aspecto furado da expedição, a existência deste capítulo é uma concessão generosa do conselhoo. Ou não.

A primeira lição da viagem solo custou caro ao monge: 12km desviados indevidamente. Perdido pelo caminho de "Capão Rico", Lulis fazia jus à meritória posição de vice-navegador. Como diria o Mister, não se deixa uma criança sozinha nem por uma manhã. Depois de mais de duas horas nos rastros do google maps (#neverforget, Sr. Google), a viagem enfim retomou o rumo do caminho do meio. No atraso e na chuva, o sucesso dos hits motivacionais "Ritmo de Várzea 14h30" e "Parada Silveira 19h" demonstraram como a alegria realmente mora nas pequenas vilas coisas.

As localidades de Várzea e Silveira você encontra no mapa da expedição. No google, talvez. Lembrando que na aventura de hoje aprendemos a não confiar cegamente nos caminhos que o google indica, amiguinhos.

Em São José dos Ausentes, esteve apenas o Lulis (inevitável trocaudilho). Como companhia, apenas sua inseparável bicicleta - a popular Kate. As provisões cedidas pelo amigo Wilson e pelos companheiros de viagem forraram tanto o estômago quanto o alforje direito. Nos dias seguintes, sol quente e chuva forte se revezaram pelos belos caminhos da região serrana do Rio Grande do Sul - alguns inéditos, outros velhos conhecidos.

Uma cicloviagem assim pode carregar muita bagagem semelhança com a experiência meditativa. Longe das atividades e obrigações a que costumamos atender responsivamente, somos convidados a praticar a presença a todo momento. A sós com nossa própria mente, aprendemos a observar o ruído constante dos pensamentos que habitualmente nos tomam. Ao transitar sem urgências por amplos espaços e belas paisagens naturais, a sabedoria sutil das coisas simples torna-se mais visível. E com a mesma liberdade que navegamos por estes espaços, podemos contemplar o espaço que se abre em nossa própria mente. E nessa liberdade os insights podem surgir até mesmo sob o atento olhar de uma desconfiada vaca:

Quando viajamos de bike, estamos fora da cerca. Não é um passo melhor ou mais nobre, é apenas diferente. E é justo esse contraste que nos desperta atenção, nos facilita o presente. Como num retiro.

Mas, mesmo em um retiro, as vacas seguem comendo e as cuecas continuam não se lavando sozinhas. Tudo no mundo continua operando - salvo, claro, quando algo deixa de operar. Como o trocador da Kate, popular "macaquinho", que nas quebradas da última (e bela!) descida de serra, jogou-se dramaticamente nos raios da roda da vida bike, como quem diz:

  • Vai lá, zé incensinho, medita agora!

O incidente aconteceu em Rodeio Bonito, a uns 100km do fim da viagem. Naquele momento, assim como a chuva, este fim parecia se precipitar. Passadas duas horas de cirurgia, um delicado enjambre precário procedimento mecânico permitiu a continuidade da viagem. Das nove marchas traseiras, nosso macaquinho heroico finalmente estava apto a excursionar por três coroas.

Depois de somente 2km de pedal exitante, Kate se recuperava estacionada nas terras do Khadro Ling - segundo a vizinhança, o popular "lá nos budas". No meio da serra gaúcha, o complexo é um refúgio vivo das tradições do budismo tibetano. Exóticas aos olhos ocidentais, as imagens e construções impressionam pelo porte, cores vibrantes e riqueza de detalhes. Formas e sensações à parte, tudo ali parece permeado por um aspecto sutil inexprimível, algo que só a presença parece capaz de explicar.

#
Templo Budista Khadro Ling
Situado no município de Três Coroas, em meio à serra gaúcha, o Khadro Ling é um centro de estudo e prática do budismo tibetano. Fundado em 1995 pelo mestre tibetano Chagdud Tulku Rinpoche, o complexo abriga templos e monumentos que retratam a expressão artística da cultura tibetana.
No espaço são organizados eventos como retiros e cerimônias budistas, frequentemente conduzidos por lamas e mestres do Budismo Vajraiana. Práticas de meditação abertas ao público também são ofertadas. Para mais informações sobre o Khadro Ling, consulte o vídeo explicativo.
A arte tradicional e a beleza natural do entorno fizeram do local um atrativo turístico da região, embora não tenha sido construído com esse intento. A estrutura é aberta a visitação pública em dias e horários específicos (verifique a agenda com antecedência). Não há hospedagem ou refeitório abertos ao público.

Fontes: Chagdud Gompa Brasil, Khadro Ling.

O solo é gaúcho, é búdico, mas ainda havia caminho a percorrer. A viagem seguiu mais um dia em baixa rotação, regado a inspeções frequentes no famigerado macaquinho manco. Nada mais coerente do que peregrinar na base da fé. As rodovias gaúchas se mostravam pouco amistosas para cicloturistas, com seus famigerados meio-(quase-nenhum)-acostamentos. Mas, assim como na época do tropeirismo, todos os caminhos levam a Viamão. Passados onze dias no banquinho, nosso peregrino finalmente apeava no destino de seu retiro de verão, a sede do CEBB - popular, ora vejam, Caminho do Meio.

#
CEBB - Centro de Estudos Budistas Bodisatva
O Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) foi criado em 1986, em Porto Alegre, pelo então professor universitário e praticante de Zen Budismo, Alfredo Aveline. Uma década depois, Aveline foi ordenado lama da linhagem Nyingma de budismo tibetano, passando a atender pelo nome Lama Padma Samten.
Em 1997 a sede do CEBB foi transferida para Viamão (RS), onde funciona até hoje o CEBB Caminho do Meio. O CEBB tem participado da organização e recepção de grandes mestres budistas no Brasil, como o XIV Dalai Lama, Chagdud Tulku Rinpoche, Moriyama Roshi, Sakya Trizin e Lama Allan Wallace. Atualmente o CEBB oferece práticas de meditação, cursos e estudos regulares em mais de trinta sedes por todo país, além dos inúmeros grupos de estudo independentes. Alguns são centros rurais, aldeias que abrigam o sonho da terra pura com visões orgânicas de educação, arquitetura, sustentabilidade, alimentação, saúde, relacionamento e convívio. Retiros de 10 dias, como os retiros de Verão e de Inverno, são tradicionalmente conduzidos pelo Lama Samten no CEBB Caminho do Meio, em Viamão.

Fontes: CEBB.

Chegar ao Caminho do Meio não foi o fim da peregrinação: foi o reconhecimento do meio do caminho. Sobre estes trinta dias de retiro (auto-surgidos dos dez inicialmente planejados), nada mais justo que deixar o próprio "monge" (que, de monge, nada tem) comentar:

Quem toma "retiro" por "descanso" se ilude. Foram dias de intensa atividade, tanto interior quanto exterior. O acolhimento carinhoso da comunidade (a popular sanga); o convívio intenso entre práticas, sorrisos, conflitos e aprendizados; a proximidade inspiradora (e por vezes inesperada) dos ensinamentos e mestres de diferentes tradições, como Lama Samten, Monja Coen, Lama Alan Wallace e Monja Isshin: todos presentes incomensuráveis nestes abençoados dias de retiro.

Em retiro, quanto mais se seguem os dias, mais se entende que não há fim. Assim, tampouco há retiro e, talvez, nem mesmo caminho. Da mesma forma que cada pôr-de-sol somente delineia o pretenso fim de algo que não cessa. Não cessa nem em sua essência primordial, nem no espaço da mente de quem contempla. Assim, segue a busca dos cicloturistas, dos peregrinos, dos retirantes, dos meditantes. Muito mais que isso, assim segue o caminhar da preciosa existência de cada um. Uma viagem sem fim (assim como este último parágrafo, filosófico leitor).

Hein? A volta? Ah, a volta não importa. Melhor respirar fundo, relaxar e seguir em frente ;)

Serviços #

Pesque-Pague Trainotti (48)3265-7187. facebook. Colônia de Dentro, São João Batista - SC.

Hotel Sens. Mariana. (48)3274-1105 / 8444-5473, link. Rua Leoberto Leal, 149 - Angelina - SC.

Pousada Doce Encanto. Leda, Valnério. (48)9909-4138 / 9637-7842, link, facebook, pousadadoceencanto@gmail.com. Rio dos Índios, Santa Rosa de Lima - SC.

Pousada Rio Túnel. Mara. (48)9600-6798 / 3652-0075, facebook. Aiurê, Grão Pará - SC.

Museu ao Ar Livre Princesa Isabel. (48)3466-0011 / 3466-5611, museuaoarlivre@unibave.net. link, facebook. Rua Pe. João Leonir Dall'Alba, 441 - Orleans - SC.

Pousada Coan. Tom. (48)3464-7204, pousadacoan@hotmail.com. Rua Chapecó, Rodovia SC-390, 31. Guatá, Lauro Müller - SC.

Restaurante Califórnia Grill. (49)3232-0234 / 9181-4565. Rua Venâncio Borges de Carvalho, 581 - Bom Jardim da Serra - SC.

Pousada e Restaurante de Tropeiro. Jucemara. (54)3883-1030. Rua Moisés Salib, 811, Vila Silveira - São José dos Ausentes - RS.

Pousada e Camping Pindorama. (54)3251-1225, link. R. João Francisco Ritter, s/n - Cambará do Sul - RS.

Refúgio do Pomar Hostel. Renato. (51)9975-6463 / 9880-6282, link, refugiodopomarhostel@gmail.com. Est. do Laticínio, 1330, Rodeio Bonito - Três Coroas - RS.

Templo Khadro Ling. (51)3546-8201 / 9694-7299, link. Estrada Linha Águas Brancas, 1211 - Três Coroas - RS.

Hotel do Vale. (51)3541-1484 / 9734-1517. Av. Sebastião Amoretti, 3247 - Taquara - RS.

Centro de Estudos Budistas Bodisatva - CEBB Caminho do Meio. (51)3485-5159, viamao@cebb.org.br, link. Estrada Caminho do Meio, 2600 - Viamão - RS.

Expediente #

Textualização e imaginário por Lulis, roteiro por Heil e Lulis.

Pedalado por lulis, thiago, heil, joão.

Publicado em 22 jul 2017.