Açungui e Ribeira

13 a 15 fev 2010 3 dias 223 km

Depois de levar um mês editando a última homérica publicação, Costa Verde e Mar, resolvemos nos interiorizar e agilizar as coisas. E foi neste clima (bem instável, por sinal), em pleno carnaval, cansados de praia e agito, que corremos os planos (e pedalamos os não-planos) para contar de um outro roteiro que vale (mesmo que não o Europeu).

Com a púdica proposta de fugir das manifestações humanas e não-tão-humanas da festividade não-tão-católica do Carnaval, aventuramo-se-me-nos no famoso (e relevantemente temido) Vale da Ribeira. A inspiração partiu do velho sonho de conhecer a estrada do Açungui: praticamente uma estrada do Cerne, com o mesmo objetivo (Castro por dentro), só que mais novinha. Ainda escapamos pelos sulcos até Cerro Azul, velha conhecida, curtindo as exóticas paisagens do Vale (ah, vale!).

Divirta-se com um circuito powered by odois, roteado à mão (e mouse - viva o GoEth!) para desviar e, ainda assim, avistar os morros da região (praticamente impossível, só que com o praticamente), digno de figurar entre as aventuras mais dignas do grupo (mesmo em época de carnaval!).

Mapa & Tracks

1Estrada do Açungui 1 dia 77 km
DIA 1 curitiba, almirante tamandaré, rio branco do sul, estrada do açungui, vila são vicente, açungui

O primeiro dia prometia ser, de longe, o mais tranqüilo (ou melhor, o menos complicado). Sabíamos que as subidas não predominariam (iríamos dos 900m de altitude curitibana aos 400m de Açungui), mas as poucas que enfrentamos na estrada foram suficientes para lacear as tiras (o certo não seria PR092 ou BR092, mas sim MR092 - de montanha russa, mesmo!).

Logo na saída, compensando os últimos séculos de pontualidade (desde a idade média do odois), o thiago se atrasou e atrasou nossa partida em 45 minutos (do primeiro tempo). Saídos, curtimos o primeiro trecho até Rio Branco do Sul escaldando-se-me-nos. Agora, difícil mesmo foi a escalada técnica do centro da cidade ao cume da Rodóvia (algo como +200m de altitude). Para compensar o absurdo altimétrico, curtimos uma "leve" descida (de ciclista pegar 79km/h, frouxo!) em que, reza lenda, até a barraca sentiu medo!

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Estrada do Açungui
Prima mais nova da famosa Estrada do Cerne (PR090), a Estrada do Açungui interliga Rio Branco do Sul à localidade de Socavão, já no município de Castro. Uma boa estrada de terra para um excelente pedal (motal, jipal, camionetal e tal) com paisagens realmente exóticas - e subida, subida pra caramba!
Na data da publicação, as condições da estrada (ao menos até a Vila Açungui) eram, em geral, boas.

Acesso: Saindo de Rio Branco do Sul (sentido Cerro Azul), passados 15km do trevo de saída da cidade, entrar à esquerda (seguir placas de acesso à Pousada Ribeirão das Flores).

A paisagem da região é bastante atípica (embora a comunidade local deva achar bem típica). Definido pelo lulis como "várias caixas gigantes de ovo abertas", o cenário era algo parecido com uma linha de montagem de morros, lado a lado, prontos para assustar ciclistas. E assim se vai o relevo, destacando-se ainda mais no percurso da estrada do Açungui. Em dado momento o du, impressionado, quedou-se da bicicleta ainda preso à sua recém-antiga-provisória pedaleira...

O sol estava apertando quando resolvemos parar sob a guarda (e a boa sombra) da Igreja de São Vicente. Vendinha à vista, é hora de arranjar algo para amenizar o calor (nem que seja uma boa risada):

  • lulis: Tarde! Vi a placa ali atrás, o Sr. tem geladinho aí?
  • sr. na janela: Tarde. Tem. É quinhentos.
  • lulis: ...Humn?!
  • sr. na janela: Tem. É quinhentos cruzêro. ...Ah, não, mudô a moeda, é trinta centavo agora.
  • lulis: ...Ah, é, agora mudou... Me veja seis então...

Muitas risadas e geladinhos depois (tinha gosto de infância, voltamos pegar mais alguns), seguimos quilômetros abaixo até a Vila do Açungui. Paramos na primeira venda para tomar mais um refrigerante (muitos outros já haviam sido tomados!) e prosear. O pessoal sugeriu conhecer as prainhas do Rio Açungui e depois procurar pouso na escola local. Parte do povo partiu para um aniversário, passou o ônibus e levou a outra parte, o refrigerante acabou, os cachorros se foram e nem eram 18h ainda. Então vá lá: vamos às prainhas!

Logo no começo do trajeto encontramos dois garotos da região que resolveram nos acompanhar de bicicleta. A enchente recente (pouco mais de uma semana antes) deixou a água do rio barrenta, a vegetação destruída nas margens e as pontes em estado precário. Bonito foi notar o espírito batalhador e humilde das pessoas do interior: já não lamentavam o caos, e ainda contavam os causos com bravura e um quê de orgulho de tê-lo visto e sobrevivido. Não um, mas sim vários exemplos, vários heróis.

Voltando, seguimos para a escola em busca de pouso. Ali conhecemos uma das maiores "figuras" de nossas viagens: Zezinho, vigia da Escola Estadual José Elias (e futuro vereador, vê-se logo). Fez alguns contatos para autorizar nossa permanência e assegurar-se de que não haveria problema. Por fim, acantonamos no pátio da escola graças a ele, que tornou-se grande parceiro de conversas e risadas. Tanto que ficou combinado: um dia a gente volta lá para comer uma galinha caipira na Chácara do Zezinho! Ê, nóis!

2Vila Jacaré e São Sebastião 1 dia 56 km
DIA 2 açungui, vila jacaré, são sebastião, vila bombas, cerro azul

Oito-e-meia da manhã, neblina, algum pouco movimento: preparativos iniciais do café-da-manhã-do-odois (praticamente uma merenda, em se sendo no pátio). Thiago ainda meio-que-dormia quando ouviu algumas palavras entrecortadas: "... sobe ... sebas ... serrinha ..." Sebas? Bom, seja lá o que for, é hora de levantar: serrinha é coisa séria!

Despedimo-se-me-nos do Zezinho (figuraça) e saímos do Açungui margeando o rio de mesmo nome até a localidade de Jacaré - muito conhecida por, por... por ser a localidade Jacaré. Paramos no primeiro bar (1bar) onde conhecemos o Pai do Lori, senhor que nos contou pacatamente a história das cobras de 4m de altura e cabeça de 40cm que andavam comendo vacas às margens do rio (ah, cobrinha safada).

Carnaval de Bar-em-Bar
Pode parecer decepcionante, pierrônico leitor, mas realmente passamos o carnaval bebendo de bar em bar, filosofando com os devotos do álcool sobre vida, sinuca e futebol. Tudo bem que nosso mote maior era a fuga do sol incinerante, assim como nosso líquido precioso era Laranjinha da Serra (ou refrisemelhantes). Era o jeito, uma vez que o clima é muito quente e úmido no Vale da Ribeira, ainda mais no verão, ainda mais com subida, ainda mais de bicicleta (e ainda mais um pouco).

Estrada afora, chegamos ao 2bar, realmente animado: uma competição em alto e bom som entre um CD sertanejo, um filme passando na TV, um pessoal jogando sinuca, uma criança chorando e odois conversando. Tudo isso no espaço de dois quartos, ou seja, praticamente um meio - ou melhor, o único meio de parar na sombra antes de encarar a "Serrinha de São Sebastião" (não era apenas sonho do thiago).

Lávamo-nós serrinha acima (nem tanto, conseguimos fugir da chuva). O 3bar estava mais calmo, sem eletrônicos ligados (a luz tinha acabado). A chuva passou enquanto bebíamos (gasosa de abacaxi) e comíamos (empanado de frango e linguiça frita) segundo a dieta típica da região.

Depois de muita serra e muito morro, iniciamos o trecho que segue o Rio Ribeira, rumo a Cerro Azul (descendo, felizmente). A situação não estava diferente do Açungui: água barrenta e sinais de destruição por todo lado. Não pudemos sequer identificar a prainha em que ficamos em outra viagem.

Nota de receptividade
A população de Cerro Azul é realmente muito acolhedora. Mal avistávamos sinais de urbanização quando uma senhora nos cumprimentou, calorosamente, da janela de uma grande casa rosada: Delíííícia! Em seguida algumas meninas saíram à varanda acenando com efusão, mostrando tanto sua receptividade quanto suas vergonhas. Percebemos que lá teríamos pouso garantido, mas seguimos adiante dada a sábia frase do presidente da comissão de ética do odois (o du): coooooorrrre que é roubaaaaada!!!

Paramos no primeiro Hotel da cidade: preço e localização razoáveis, o único receio era a baderna do carnaval. O thiago e o arce seguiram alguns quilômetros em busca de uma pousada mais retirada (a do baiano). Nesse meio tempo fomos abordados pelos pessoal que opera o rafting no Rio Ribeira (Praia Secreta Expedições). Demos ótimas risadas com esse povo tão metido em aventuras quanto nós e, de quebra, ganhamos uma dica preciosa sobre a escolha do pouso: hoje (carnaval!), na pousada (do baiano!), ninguém dorme!

Com os 2% de energia restantes, saimos para "dar uma olhada" no carnaval de Cerro Azul. Foi o suficiente pra entender (relembrar?) o porque de estarmos viajando pelo interior, fugindo do carnaval. Logo fugimos desse também. Ou você achou que que nós iríamos dormir na pousada do baiano? Ê, nóis!

3De 320m a 1mil e tantos metros 1 dia 90 km
DIA 3 cerro azul, rio branco do sul, almirante tamandaré, curitiba

Dormindo no hotel, com café posto, saímos cedo a ponto de pegar o clima ameno da manhã. Precioso, dado que hoje seria dia de recuperar a altitude deixada para trás durante a viagem (altitude inicial: 320m!).

É inegável a beleza da estrada: grande parte coberta por árvores, com muito zig-e-zag, sobe-e-desce-e-sobe, deixando a brincadeira nada monótona. Seguimos 25km (subidos, quase todos) até a primeira parada no posto de fiscalização (no posto, não: no bar em frente!). A descida que precede o posto é forte candidata a velocidades acima de 70km/h (de bicicleta). Bem divertido, mas lá se vão preciosos metros de altitude que terão que ser subidos novamente...

A parada foi providencial para arrumar mais um pneu furado do lulis (já era o 3º da viagem). Fizemos dois animados amigos (o primo da prima e a prima dele) que nos indicaram uma cachoeira por ali. Tentados, declinamos dada a ascendente perspectiva do dia: ao que parecia, em breve entenderíamos o real signficado de "subir a serra".

Antes da subida derradeira (aquela da máxima a 79km/h, só que na ida (agora prometendo velocidade mínima)), mais uma parada. Sol forte, já no 6bar ou 7bar da viagem (perdemos a conta - ê, povo que gosta de agito), os alcoófilos locais nos divertiam com contos da bizarrice regional enquanto reparávamos o pneu dianteiro do lulis (de volta!). Furo reparado, roda montada e... POUUU! Mais um furo, antes mesmo de partir (eficiência!). Admitindo nossa incapacidade momentânea, recorremos ao borracheiro (e dono do bar) que por R$1 arrumou direito as duas câmaras (pormaisque uma tenha furado no dia seguinte).

Nota ao thi métrica
Sapatilha, corda, mosquetão, cadeirinha e magnésio prontos. Já podemos começar a escalada rumo à cota 1.000m de altitude!

Na subida, surpresa para os bike boulders: uma pick-up descendo rápido, freia bruscamente! Ré ainda mais brusca! Entre o medo e a curiosidade, desce o vidro: Dr. Neves, chefe-orientador do lulis (e excelente humorista nas horas vagas). Algumas risadas depois, cada qual segue seu caminho: nós queimando a pele no sol e o impagável Neves, segundo ele mesmo, queimando diesel.

Tardamos a alcançar Rio Branco do Sul - tão tardado que não restou chance de almoçar. Receando um temporal que não veio abaixo, fizemos praticamente um picnic em um bosque central (praticamente um Barigui, só que sem o Barigui), só que sem a toalha. O trecho final foi mais tranquilo, com sol fraco, chuvisco e uma pequena parada para gastar os centavos finais em um merecido caldo de cana.

Chegamos em Curitiba cansados, mas em paz - sensação um tanto quanto alienígena para um feriado de Carnaval. Típica folia à moda cicloturística que, certamente, valeu (e vale!) a alegoria! Ê, nóis!

Serviços #

Hotel Laranjeiras. Gildo Stival (41)3662-1212. R. Marechal Floriano Peixoto, 213 - Cerro Azul - PR.

Expediente #

Texto por du e lulis, fotos e comentários por lulis, roteiro por du (uns 13% inspirados em Hideson), amigos da escola por Zezinho.

Pedalado por du, lulis, thiago, arce.

Publicado em 17 fev 2010.